quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Bivaque ao vento na Serra do Lopo

Com saudade daquela pequena pitoresca serra, saí de São Paulo sábado de manhã só pra passar uma noite no alto da Serra do Lopo entre os municípios de Extrema e Joanópolis de Minas Gerais. O objetivo era simples: Fotos e tranqüilidade...

Viagem mais curta pra montanha desde São Paulo só indo até o Pico do Jaraguá mesmo. Extrema fica exatamente a 83 kms da capital em linha reta, por estrada dá 106 kms. Bem rapidinho, saindo da Tietê pela Viação Cambuí o tempo de viagem é menor do que o tempo que levo pra chegar ao trabalho todo dia que me custa longos 100 minutos em média. De SP até Extrema dá só 80 minutos.

Chegando lá há uma escolha simples à fazer: Subir os 10 kms da estrada da Embratel a pé ou pagar um táxi. Da última vez que subi a pé cansei e acabei bivacando na estrada mesmo, arriscando até ser atropelado por algum carro durante a noite. Dessa vez resolvi facilitar as coisas, paguei um táxi até as torres, pra que suar no sol e no calor de trinta graus desnecessariamente? Parece que existe uma trilha que sobe pela Pedra do Sapo, mas não conheço e não consegui informações então fui motorizado mesmo.

Bem rápido cheguei às torres da Embratel. Dali desci uns 100 metros até o portal da entrada da Pousada Céu da Mantiqueira, ali a esquerda do portão sai uma trilha secundária pro Lopo, sendo a trilha que sai da pousada a principal. Troquei de roupa e entrei na trilha sozinho, escutando conversações na mata.



Pouco tempo depois cheguei até a Pedra das Flores, andando calmamente pra prolongar a trilha propositalmente já que é muito curta. Queria curtir o mato, já estava com saudades...


Pico do Lopo, montanha muito fácil e deveras bonita!


Chegando na Pedra das Flores, esbarrei com dois grupos, um guiado de sete pessoas que logo seguiu pro Lopo, e um grupo composto de três casais que já estavam de barraca armada na Pedra. O primeiro grupo era meio família, todos educados, curtindo o local e a beleza daquela serrinha agradável. O segundo grupo era bem diferente.
Bom, sentei afastado, fiz um lanche rápido, peguei minhas tralhas e quando comecei a andar vi o grupo subindo a rampa final pro cume da montanha, daí segui pro Pico do Lopo, onde cheguei vinte minutos depois.


A cinco minutos do Lopo esta é a visão do grupo de boulders do topo


O grupo mais família ainda estava no cume fazendo fotos e curtindo o vento forte de lá. Essa montanha tem forte incidência de ventos, pelo que sei sempre foi assim.

Fiz umas fotos, uma panorâmica, um vídeo. Curti um pouco e comecei a descer. Na descida ainda encontrei engarrafamento deste mesmo grupo que começou a descida antes de eu cerca de dez minutos. Na verdade eu tinha a idéia de bivacar no cume do Lopo mesmo, mas pensei um pouco e mudei de opinião. O local que cabe uma barraca certamente me serviria pra bivaque, mas estava com muita areia e o vento começava a sacudir tudo aquilo, mudei de idéia procurando um local limpo e a opção obviamente é a Pedra das Flores, limpa e relativamente plana.




180 graus de visão do cume do Lopo. Destaque para o Pico do Selado a esquerda a só 31kms de distância


Cheguei de volta lá sob um calor forte, uns 30 graus e com vento fraco ainda. No Lopo venta bem mais forte. Escolhi meu canto de bivaque, afastado dos três casais uns vinte metros, organizei minhas tralhas e só esperei o pôr do sol, que ainda demoraria mais umas cinco horas!

Nossa, torrei no calor...Mas até dei uma cochilada, joguei sobre o rosto minha toalha e fui embora, cochilei acho que uma hora direto, o vento aumentou um pouquinho e ficou até suportável o sol. Bem, certamente mais suportável do que dentro de uma barraca onde o calor do sol seria muito pior.

As horas passaram e comecei a me preparar pras fotos do pôr do sol e o vídeo do pôr do sol. Então levei as duas câmeras e enquanto uma filmava, eu clicava com a outra. Foi bom e dinâmico, tenho feito isso, levo duas câmeras e pelo menos um tripé comigo.


O começo do pôr do sol...



Que espetáculo...


Nessa hora um rapaz do grupo veio falar comigo, perguntando se a fogueira que havia no acampamento ao lado de um grande boulder ali era minha (???). Claro que não, nunca faço fogueira. Mas fui sucinto na minha resposta. Depois de mais um tempo ele voltou e me convidou a me juntar a eles pra bate papo, que tinham vinho e etc. Eu disse que iria e até pretendia bater um papo antes de dormir, mas depois disso o que rolou me desencorajou e até me causou repúdio ao impulso de passar no acampamento deles em busca de papo “pré-sono”.

Ligaram som e começaram a beber, durante o dia mesmo de cada cinco palavras que falavam duas eram palavrões. Na bebedeira, a cada dez, sete ou oito eram palavrões. Depois de um tempo começaram a disputar qual namorada fazia barulho mais alto durante o coito. Gente, que nível...Fiz questão de não ir até as barracas e me deitei se não me engano era 20:15h, apaguei de sono.

Acordei assustado com o vento às 22:45h, nossa, como ventava...E a farra do boi continuava ao lado, agora já estavam todos bêbados, e a festa bovina continuava a toda. Espero que pelo menos os preservativos, se foram usados, tenham sido recolhidos e levados com o grupo pra descarte correto.

Filmei o nascer do sol, mais 27 minutos de vídeo guardados para edição futura. Enquanto filmava com a Sony fotografava com a Canon. E não é que apesar de mais peso é interessante carregar duas câmeras? Gostei da idéia e já faz algum tempo que ando praticando a estratégia.




O nascer do sol, como pode tanta beleza e tranquilidade tão perto de SP???


Quando acabei meu trabalho arrumei tudo e quando deu 06:37h coloquei o pé na trilha voltando pra casa, aproveitando a temperatura amena da manhã de 8 graus celcius. Perfeita pra caminhada leve de retorno. Cheguei de volta ao portal da pousada Céu da Mantiqueira era 07:40h. Dei uma ajustada na mochila, comi duas bananadas de café da manhã e comecei a longa descida de 10 kms até a cidade.

Cheguei na rodoviária às 10:15h. Desci rápido até. Dessa vez nem cansei tanto quanto da última vez que desci andando a estrada do Caparaó, que é consideravelmente menor do que a da Serra do Lopo. Tinha passagem pra 15:30h mas consegui trocar sem grilo nenhum pra 13:00h, ufa que beleza! Pelo menos dessa vez deu tudo certo e pude voltar pra casa com tranqüilidade e com muitas fotos bonitas.

Esperava ter alguma companhia pra bater um papo na Pedra das Flores, mas que essa companhia fosse pelo menos respeitosa com a busca de outrem por silêncio, desfrute da natureza e de um belo pôr do sol, infelizmente não encontrei isso. Mas faz parte. Mesmo assim, consegui me abstrair e gozar de certa tranqüilidade com um bivaque iluminado por estrelas e uma lua deveras brilhosa. Se você busca o mesmo, dê uma passada na Serra do Lopo, é perto, belo, serrinha merecedora de prestígio montanhista.

Chego a refletir um pouco sobre o comportamento de excursionistas/ campistas nas montanhas. É impressionante, será que o nosso comportamento é que é o anormal? Porque é tão, mas tão comum ver este tipo de coisa (som alto, bebedeira, etc), que chego a relativizar o que eu mesmo classifico como normal e respeitoso. Será que eu é que sou o errado? Será que o que as outras pessoas como estas e tantas outras fazem é o tido como “comportamento de acampamento” correto digamos assim?

Hum...Não sei. Mas tenho certeza de uma coisa: Gosto mais do meu jeito, do nosso jeito montanhista.

Abrazos a todos,

Parofes

3 comentários:

Renato disse...

Conheci a serra do Lopo muitos anos atrás, uns 15 mais ou menos. Subia por uma trilha a partir de uma fazendas/sítio, que infelismente não lembro mais (não dá para confiar na memória). Lembro que era uma subida dura, ainda mais carregando michilas pesadas, mas valia a pena.
Penso em levar as crianças para acampar lá, subindo pelas estradas das antenas, mas depois do seu relato, melhor pensar mais a respeito. Já pensou se com os meus filhos ai me deparo com esses "campistas" ? VIXE !

Infelismente o padrão de "acampar" na sociedade é mais próximo a uma orgia/bebedeira/bagunça do que sossego paz e silêncio, nesse sentido somos nós que somos os "pontos fora da curva" da sociedade, logo somos nós os anormais sim, que vemos o mundo de uma forma diferente do usual, pensamos diferente e agimos diferente, logo os "errados" nessa história somos nós mesmo.

Fazer o que, prefiro assim :-)

Vou tomar coragem e torcer para quando levar as crianças para lá, não tenha o azar que você teve, derrepente nos encontramos lá, em um esquema mais anormal mesmo, com silêncio, paz..

Braços

renato

Miriam Chaudon disse...

Bonito lugar! Pena mesmo é encontrar com gente tão barulhenta em lugar que merece contemplação e respeito.

Bea disse...

é foda, paulo!! por essas e por outras cada vez mais prefiro somente a minha cia!!