segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Rucu Pichincha, 4.702 metros.

A manhã de 2 de janeiro chegou, diferente das previsões, com chuva. Mesmo assim, deixei minha mochila pronta e fiquei pensando no albergue se iria ou não. Estão pensando o que? Claro que fui!

Como eu sempre disse, montanha é montanha e a altitude não importa. É óbvio que é legal subir um seis mil, mas se a montanha é bonita, isso é o que eu sempre busco. Sinto-me mais atraído. Já vi alguns relatos em blogs ou até mesmo no “sua aventura” do altamontanha de brasileiros que foram ao Equador e só consideraram cumes dignos de relato o Cotopaxi e o Chimborazo. O Cotopaxi com a propaganda comercial de “vulcão ativo mais alto do mundo” (que eu não aceito, pois eu mesmo já escalei um ativo mais alto quase 250 metros) e o Chimborazo por ser o highpoint do país e por ter definido em seu cume o ponto mais distante do centro da Terra. Peraí, o Pichincha não merece relato? Merece sim!

Os Pichinchas são três montanhas distintas que ficam a só 10 kms de Quito, dominando a paisagem da cidade. São eles o Guagua Pichincha (4.774m), o Rucu Pichincha (4702m) e o Padre Encantado (4.685m), separados por exuberantes vales de cerca de 500 a 700 metros de profundidade, e entre 1,5 e 2 kms de distância em linha reta um do outro.

Já sei, se perguntam “Por que o Parofes não foi no Guagua que é o maior deles?”, respondo de antemão, chegar ao Guagua sozinho custa caro e a trilha desde a vila de Lloa (vilarejo longe de Quito para subir o Guagua) é assolada por assaltos a andinistas em aclimatação solitários. É uma área mais pobre de Quito e um pouco mais rural, relatos de furtos ou roubos a mão armada são semanais, portanto sozinho eu não iria. Além do mais, o Rucu Pichincha é uma bela montanha e de fácil acesso, além de mais segura.

De meu albergue (Centro del mundo, rua Lizardo Garcia – indico!) peguei um táxi que por só quatro dólares me deixou no teleférico da cidade a 3.000 metros de altitude. Lá, peguei o teleférico (8,50 dólares pra via expressa, subida e descida) até a cota dos 3.850 metros (vendem o peixe de que a altitude do teleférico é de 4.100 metros, mas fica longe disso, medi no GPS).



Comecei a subir a trilha às 10:00h sem ver nada, nem a montanha, e as vezes nem a trilha 15 ou 20 metros adiante. Bem, quando subo uma montanha tida como fácil, procuro dificultar um pouco e assim meu psicológico me diz que o cume foi “mais merecido” por assim dizer. Fiz isso inclusive com o Chacaltaya, bem conhecido por aqui. De carro ou táxi é possível chegar ao Clube Andino a 5.300 metros e só subir os últimos 100 metros verticais até o cume. Nunca fiz isso, subi a montanha duas vezes em menos de 24 horas e nas duas vezes pedi pro táxi parar na estrada mesmo a aproximadamente 4.700 metros nas lagunas escondidas, e dali mesmo pirambei até o cume. Para o Rucu isso não seria diferente.

As circunstâncias foram: Passei por quatro aeroportos, dois pousos, duas decolagens, estava surdo de um ouvido, sem jantar e sem café da manhã pra caminhar. A última refeição fora o almoço mínimo de avião servido durante o primeiro trecho da viagem: São Paulo – Bogotá. Além disso, subi sem água! Assim a montanha seria diferente pra mim.

Comecei a andar sozinho, roxo de fome e com um pouco de sede. Fui passeando, a trilha inicialmente é mais aberta que as trilhas de Monte Verde, em alguns pontos chega a ter incríveis 3 metros de largura. Depois disso, vira uma trilha ainda bem batida mas se limita a 1 metro e as vezes a 50 cms de largura até as pendentes vulcânicas. Passei por várias paredes de rocha muito bonitas, um forte potencial pra vias esportivas de até 50 metros!

Conheci um pessoal pela trilha, turistas que subiam a montanha de calça jeans, as mulheres de bota da moda e cachecol. Eram todos gente boa mas completamente despreparados. Diminuí minha passada pelo cansaço, fome, quilos a mais (deixei o Brasil com 79,5 kg! Meu record!), sede, e os acompanhei. Só por um tempo é claro.

Fomos ganhando altitude e a respiração foi ficando mais difícil. A 4.400 metros acaba a trilha gramada e começa uma moraina a esquerda com mais ou menos 40° de inclinação (vide foto), terra e rocha, tudo solto. Ali me separei deles que continuaram na rota “normal”, apontei uma linha reta pro cume e fui sozinho, saindo a trilha. A sede agora era cruel,mais que a fome. Estava bem cansado...

Prossegui com pequenas pausas, subi toda a moraina e no seu final veio o trepa pedra que em algumas partes era escalada mesmo, um 4° grau, não podia cair. Esse trecho era de só uns 100 metros verticais e acaba direto no cume.





Lá, encontrei uma garrafa de água, vazia mas limpa, tinha muita, muita sede...A garrafa parecia nova. Me afastei do cume um pouco e enchi a garrafinha de neve fresca, guardando a mesma dentro do fleece pra que ela aquecesse com o meu calor corpóreo, derretendo a neve. Voltei ao cume pra fazer fotos e medição. O gps já estava ligado e encontrei a altitude de 4.702 metros, significa cerca de 850 metros de desnível desde o teleférico, não é muito mas não é pouco. Fiz minhas fotos de cume usando o tripé, daí o grupo chegou pela metade, o resto desistiu (meninas de bota da moda) e voltou. De lá olhei pro Guagua Pichincha, parecia enorme! Vi o Padre Encantado também, meio sem graça, bem normal. De fato eu não o chamaria de montanha e sim uma formação rochosa.



Conheci no cume dois eslovacos, batemos algum papo com dificuldade já que não falavam espanhol e o inglês quase inexistia pra eles. Nesse tempo o céu abriu um pouco e pude ver Quito! Fiz uma panorâmica, fotos isoladas do visual, muito, muito legal...

Por fim a comunicação rolou mais ou menos com os caras. Um deles faz corrida de aventura então era muito forte mas não montanhista/ alpinista. O outro sim era alpinista experiente. Quiseram marcar de escalar comigo depois pra dividirmos custo de transporte, trocamos emails mas acabou não rolando nada, mas esbarrei com eles no Cotopaxi no dia seguinte!

Fiz vídeo do cume e relaxei por uns 15 minutos, a neve derreteu, pude beber água. Doce sabor da vitória...Comecei a descer. Terra de moraina = ski bota. O trecho que me roubou uma hora desci em pouquíssimo tempo. A fome era fantástica, podia jurar que pensava tanto em comida que ria sozinho andando na volta ahahahaha....

Me apressei e a volta foi concluída em pouco mais de uma hora, a ida custou longas 3,5 horas. Chegando nas proximidades do teleférico notei um amontoado de turistas e uma fumaça subindo, comida!!! Umas cholitas equatorianas vendendo um prato mediano com um bom pedaço de frango na brasa, salada e batatas cozidas por só dois dólares...Putz...Enquanto comia sentia o sangue correr com mais vontade! Também tinha copo de 300 ml de coca-cola por 30 centavos cada, bebi três copos e a sede foi devidamente esquartejada.

Depois da comilança deitei na grama e apreciei a vista por bons vinte minutos...Que lugar maravilhoso pra relaxar...

Fiquei bastante feliz com meu primeiro cume nos “andes nórdicos” equatorianos, sorri bastante olhando a paisagem e comecei a voltar depois de um tempo. Conheci um casal. Ele: Equatoriano, ela: norte-americana. Ela deixou o país e foi morar no Equador com ele. Também eram andinistas. Duas semanas atrás desistiram do Cotopaxi a 5.600m por causa de neve na coxa! Disseram voltar tremendo de frio a quase –15°C. Más prévias ah? Me ofereceram carona até a cidade e meu albergue, que massa! Economizei a grana do táxi.

Bem, chegar ao cume do Rucu Pichincha me custou somente 15.40 dólares, foi de fato uma pechincha!

De novo, não importa a altitude, o Rucu Pichincha é animal visto da trilha, uma pirâmide de rocha saindo dos campos de altitude apontando para o céu. Do teleférico até o cume são 850 metros de desnível, bom até pra começar uma aventura equatoriana. E de mais a mais, se os companheiros montanhistas não considerarem a montanha ainda assim, pensem desta forma: A maior montanha brasileira ACESSÍVEL A MONTANHISTAS é o Pico da Bandeira de 2.893 metros, e a trilha pro cume dele, desde o acampamento, leva somente uma a uma hora e meia.

O Rucu Pichincha tem 4.702 metros de altitude, é um vulcão inativo, e a falta de oxigênio rola fácil a partir dos 4.200 metros, e eu fiquei cansado pra fazer cume!

Última informação: “Rucu” é Quecha para “velho”, e “Guagua” é Quechua para “novo”.

Fotos:


Primeira vista do Rucu, mas este não é o cume, que está atrás mais distante e alto.


Um pouco da paisagem...


Chuquiragua jussieui, essa planta leva 50 anos pra atingir 1,5 metro de altura e dar esta bela flor.


Meia hora depois de estar andando, olhei pra trás e fiz essa panorâmica.


Um pouco inclinado!


"Chão pegando fogo"


Cume do Rucu Pichincha, 4.702 metros. Foto no tripé.


Panorâmica de vista do cume pra Quito.


Comidaaaaaa!!!!!!


Em breve outros relatos!

Abraços a todos

Parofes

2 comentários:

Bea disse...

paulo, tu é um afortunado, meu guri!! consegues viajar mesmo desempregado, tiras 600 fotos pra recordar na volta e moras no quintal da mantiqueira e queres o que mais? se isso te consola, tenho inveja de ti, sabia?

Carlos Roberto Paiva disse...

Aguardo com expectativa suas expedições. Fico feliz com você e sou solidário na sua forma de ver a montanha, não só pela altura, mas pela beleza do conjunto. Manda outra.