sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O retorno ao Cordon Del Plata - parte 3

Continuando...

Na madrugada seguinte de nossa descida eu estava bem, nada cansado. Entretanto, como expliquei antes, com algumas bolhas nos pés por ter usado pela primeira vez a minha super latok Boreal, alèm disso, as pontas dos dedos dos pés estavam doloridas como se tivessem sido espancadas. Tecnicamente foram na descida quando naturalmente o peso do corpo tende para frente nas morainas. Alem disso tudo, tinha um sono meio "Clube da Luta" onde ficava meio dormindo meio acordado, resultado do rarissimo sono de verdade que consegui somando todas as ultimas cinco noites.

Decidi nao subir, Edson foi com o Rainner e fizeram cume no Plata antes de meio dia. Fiquei absolutamente sozinho em La Hoyada, aproveitei pra fazer varias fotos do glaciar La Hoyada, aos pes do Cerro Vallecitos, da encosta do Cerro Plata e Pico Plata e, aos meus pes. Nao se pode ver, mas estava acampado sobre o glaciar.

Acontecem muitas avalanches de rochas, todos os dias, as fotos comprovam isso. Por este motivo e pelo avancado derretimento dos mesmos, ficam submersos sob uma fina camada de rochas menores que varia de 20cms a possivelmente um ou dois metros.

OBS: Enquanto escrevo este relato acontece uma busca frenetica por um montanhista de nome Javier Paduszek de 39 anos, que ao descer por cansaco do Mercedario se perdeu. Sorte para ele e para a busca...

Andei pelo glaciar todo, chegando bem perto da principal ruptura e vendo o pequeno rio de degelo sob meus pes. Fiz fotos, caminhei mais ainda...Quem encontro? O casal perdido desinformado.

Estavam caminhando tentando aclimatar-se. Disse a eles que bebessem agua mas disseram "nao, obrigado nao temos sede.". Gente, como pode tanta, mas tanta ignorancia acerca de uma atividade que pode te matar so por causa da falta de informacao? Sequer sabiam que devem beber muita agua todo dia. "Pelo menos ainda estavam vivos" pensei.

Voltei a barraca, perto de meio dia comecei preguicosamente a organizar tudo para a descida do Edson, com a intencao de descermos rapidamente para o abrigo e no dia seguinte tentar a La Cadenita, quatro cumes de 3 mil metros.

Pouco antes das duas ele chegou, comecamos a arrumar tudo e logo depois que o Rainner chegou, nos despedimos e comecamos a descer, era 15h. Estavamos a 4660 msnm e tinhamos que chegar a 2900 msnm, Abrigo Mausy, para um banho e uma noite de sono, pra mim, desesperadamente necessaria. La fomos nos...

Caminhando rapidamente mas sem correr para nao nos acidentar, chegamos em meia hora ao El Salto, onde mais grupos chegavam e preparavam seus acampamentos. Nosso amigo de Cordoba Matias continuava la, e na proxima madrugada tentaria o Plata. Ja lhe mandei um e-mail perguntando como foi mas nao obtive resposta, estou curioso.

Pegamos mais peso que deixamos escondidos atras de uma rocha e seguimos caminho. O tempo estava pessimo mais abaixo. Bem cansados ja chegamos a Piedras Grandes a 3550 m. Que eternidade para descer!

Nao para por ai, quando chegavamos nas proximidades do Las Veguitas, tinhamos que atravessar o rio. Quem disse que era possivel? Nao! O calor dos dias anteriores deve ter acelerado o derretimento das geleiras. O rio estava bem forte impossibilitando uma travessia segura. Me veio a cabeca a cena do filme "Na natureza selvagem" em que Alexander Supertramp nao consegue atravessar o rio e volta ao seu onibus solitario, faminto e desolado.

Continuamos no mesmo lado, ja com os joelhos desesperados por descanso,buscando por uma passagem segura. Nada...Fomos embora...Depois de uns 30 ou 35 minutos descendo, ja no leito do rio todo pedregoso, encontrei uma possivel travessia. Mas isso demandaria uma destreza e forca para atirar as mochilas antes. La fui eu. Pulando de monte de rocha em monte de rocha consegui chegar no ultimo trecho, do arremesso. Joguei a mochila menor, joguei a maior, pulei. Ufa, consegui!

Depois veio o Edson, o mesmo e tudo deu certo. Ficamos impressionados, parecia um outro rio, um outro lugar.

Dai em diante foi rapido descer ate os 3000 metros do refugio Vallecitos e descobrir que nao havia comida, que merda! Descemos mais ainda ate o Refugio Mausy onde finalmente encontramos comodidade e um ambiente de montanha muito legal.

O dono nos respondeu a varias perguntas, nos serviu uma pizza que, sem exagero, foi a melhor que comi em Mendoza ate agora! Bebemos uma coca, papeamos mais, conhecemos mais andinistas, banho quente de verdade, cama.

Nem acreditei, dormi 9 horas direto! Que sonho...Precisava loucamente de uma noite de sono ininterrupto. Acordamos tarde, quase dez. Ja levantei bem mais disposto a subir a La Cadenita mas o tempo estava um lixo, nao haveria visual nenhum entao desistimos.

Ao meio dia reencontramos o Rainner no Vallecitos e voltamos pro Mausy esperando pelo Jorge que viria nos buscar as 13h. Pontual como um ingles, chegou e nos levou deixando-nos no mercadinho incendiado, onde para o onibus para Mendoza, as 13:55h.

Em alguns minutos o onibus veio.Sem lugar para sentar voltamos de pe mesmo. Chegando a Mendoza descobri uma perda, primeira da viagem. Sem perceber, no refugio Mausy, encostei minha mochila na placa do aquecedor e la ficou a noite toda.

Meu mp3 foi parcialmente derretido,nao funciona corretamente nem carrega mais, alem de ter ficado com um look meio melancolico (risos), alem disso, o topo da minha mochila esta com um irritante cheiro de queimado, e uma das minhas 4 cordas plasticas para fixacao da barraca tambem foi parcialmente derretira. Paciencia, hoje, vencendo a preguica, encontrei um novo mp3 vagabundo de 4gb que me custou 200 pesos. Fazer o que...Vivo musica.

E isso ai. Dois dias depois Edson e Rainner partiram para dez dias de montanha, continuo na cidade tentando loucamente transporte para a montanha que quero ir, tarefa que parece quase impossivel. Bah...

Me resta esperar, rir dos eventos absurdos e loucos que acontecem no albergue que estou, conhecer gente do mundo todo o que sou realmente bom. Fiz amizade com 2 amigos noruegueses muito figuras, que so querem saber de beber vinho, conversar muito e fumar maconha. Dois doidos muito comedia. Eu nao uso drogas nem que me obriguem mas isso nao me impede de me socializar...risos.

E isso ai, nao sei se vai rolar a proxima montanha que quero, o unico transporte teve a cara de pau de me cobrar 2000 pesos pra me levar e me buscar 5 dias depois. Isso e muito dinheiro! No way.

Abrazos a todos.


Campo de penitentes durante a descida do Vallecitos.



O glaciar de La Hoyada 1. Ao fundo a direita minha barraca.



O glaciar de La Hoyada 2.



O glaciar de La Hoyada 3.



O glaciar de La Hoyada 4.



O Abrigo Mausy, lugar muito legal. Recomendo a todos!



O momento que chegamos ao albergue.

3 comentários:

Elisangela Dionisio disse...

Muito bom seu blog, as fotos são incríveis. Parabéns!!!

Bea disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bea disse...

querido paulo!
comecei a postar minha indiada no neblina. ainda estou inebriada das muitas sensações lá vividas! que mundo, que mundão aquilo lá!! me apaixonei, de verdade!! abraços!!