segunda-feira, 11 de agosto de 2008

O despertar para o montanhismo!


Vamos lá...

Essa História é verídica, nela conto como despertei para o montanhismo, mesmo sem ser essa a minha intenção na época.

Eu havia iniciado meu primeiro mochilão internacional em janeiro de 2007. Já era mochileiro de carreira tendo começado em 1996 com 19 anos de idade, mas agora seria minha primeira aventura fora do país, e tinha que valer a pena!

Após alguns pequenos problemas no início da viagem estava na cidade de Cochabamba na Bolívia onde conheci um peruano e um boliviano que tentavam chegar a La Paz também. Combinamos com um taxista uma corrida até La Paz por US$ 100.00, nada ruim para um trajeto tão longo, e dividiríamos o valor por três. Na Bolívia a regra é combinar um valor antes de sentar no táxi. A barganha também é importante e cultural por lá e por outros países da América do Sul.

Viagem à frente. Saímos do aeroporto de Cochabamba e logo logo nos vimos frente a frente com um bloqueio. Nada de saídas, não havia como escapar. Para todo lado que o taxista tentava, bloqueio. Estava pior do que imaginávamos, nos enfiamos no meio de uma crise social boliviana.

Após tentar sair do bloqueio por umas duas horas o taxista desistiu, e nos deixou onde estávamos mesmo. Pagamos somente 20 pesos bolivianos cada um e seguimos nosso rumo a pé.

Eu nunca tinha visto uma movimentação popular tão abrangente como aquela. Em um momento passávamos pela estrada onde havia pedras, montes de areia, pneus queimados e etc. Sobre um monte vi um papel grande escrito a mão, era uma mensagem de protesto. Claro, sendo Historiador pretendia registrar aquilo. Saquei minha máquina e fiz uma foto. Isso foi um erro! Fui cercado por pessoas que acreditavam que eu fosse um repórter, e queriam tomar minha máquina!

Foram cinco minutos tensos, e no meu paupérrimo portunhol, tive que dizer a todos que era Professor de História em uma viagem cultural pela América do Sul, e por isso registrava o acontecido, além de ser inteiramente a favor de todas as reivindicações que o povo dali fazia. Por fim me deixaram ir com minha máquina.

Esse foi só o começo. Em Cochabamba já há alguma altitude, cerca de 2.560 msnm. Minha mochila que pesava 16kg (descobri o peso total quando embarquei ainda no Rio de Janeiro para Santa Cruz) ainda não incomodava, mas iria incomodar!

Andamos por várias horas. No total cerca de 22 km! É muita caminhada a uma velocidade muito boa, e até então nunca havia caminhado tanto em minha vida. A noite caiu e com ela o frio chegou. A temperatura despencou de 20°C para 5°C, e cairia mais ainda.

O bloqueio estava bastante sério, centenas de caminhões parados nas estradas, milhares de pessoas protestando. No centro houve manifestações e uma pessoa foi morta, Cochabamba estava à beira de uma stasis social.

Durante a noite a caminhada ficou preocupante, pois não havia só pedras no chão, havia também espinhos! Galhos inteiros de espinhos que não eram espinhos normais, eram enormes! Espinhos com três ou quatro centímetros de comprimento, duros o suficiente para furar pneus, e eu ficava imaginando o estrago que seria capaz de fazer em um um pé. Peguei na mochila minha lanterna (item que não pode faltar), e fui iluminando o caminho para não parar em um hospital.

Finalmente encontrei uma parada de caminhoneiros na subida de uma montanha. Ali havia um pequeno restaurante, simples como todos na Bolívia, onde comi minha primeira refeição. Foi um prato de frango frito com arroz e salada de alface e tomate. Revigorante, maravilhoso, e me custou somente três bolivianos, menos de 50 cents de dólar!

Pedi permissão para o dono do estabelecimento para montar minha barraca de camping ali mesmo, e ele deixou sem exitar. Armei a barraca por volta de meia noite. Antes de dormir, combinei com um caminhoneiro uma carona pelas montanhas até La Paz, minha segunda tentativa de chegar a La Paz. Dormi até 04:00h, foram as piores quatro horas de sono que tive durante a viagem, fazia frio (cerca de 0°C), estava deitado praticamente no chão, tendo meu mochilão como travesseiro e a lona da barraca como cama. Acordei no horário programado, e segui viagem na caçamba do caminhão.

Montanha acima aqui vamos nós! Frio pela manhã, começamos a subir. Quando achava que já era o ponto mais alto, o caminhão fazia uma curva e havia um cume mais alto...nenhuma civilização, nenhuma construção, só o caminhão e estradas de terra montanha acima. Lá pelos 4.000 msnm, o caminhão não agüentava mais e superaquecia repetidamente. Não poderia mais continuar ali pois nada iria adiante. Por sorte, um caminhão carregado de uma colheita de milho passou, combinei uma carona e subi nele. A viagem continuava repleta de aventuras em estilo Indiana Jones! Até então não conseguira tomar um banho ainda. Já era o terceiro dia da viagem.

Continuamos no caminhão até que por fim ele alcançou uma estrada asfaltada, de ótima qualidade diga-se de passagem, que ligava os distritos bolivianos atravessando Cochabamba, Oruro e chegando a La Paz. Nela paramos por meia hora para almoçar. O cardápio era sopa de pollo (frango), dieta natural local e repetidamente oferecida pelo povo boliviano. Após o almoço cujo estabelecimento nem adianta indicar pois fica no meio de um pequeno povoado sobre as montanhas, seguimos viagem na auto-estrada rumo a La Paz.

Justamente quando eu pensava que o problema havia sido superado voltei a me preocupar. O bloqueio ainda estava firme, e as estradas estavam cheias de pedras que o povo montanhês rolava morro abaixo. O interessante é que o povo que vive nas montanhas não fala espanhol, eles ainda falam o dialeto primitivo Aymara, e a tentativa de contato com o povo boliviano que mora nas cidades não é muito bem sucedida, eles literalmente não se entendem! Chegamos a um bloqueio com cerca de cinquenta pessoas que vivem nas montanhas, e ali ficamos.

O dono do caminhão deu para as pessoas cerca de cem espigas de milho, mas não haveria mais negociação, sem chance. Mais uma vez, a viagem seria decidida na base da caminhada, só que dessa vez a 4.200 msnm. A mochila que pesava 16kg se transformara em um saco de cimento que parecia pesar 50kg. Era a altitude mostrando suas garras me avisando que o oxigênio é oferecido em escala consideravelmente menor. Apesar de ter sempre vivido ao nível do mar e ter rinite alérgica, surpreendentemente não fui afetado com a altitude em nenhum momento da viagem. A falta de oxigênio é normal, mas não foi tão difícil a ponto de me deixar fisicamente limitado.

Terceiro dia de viagem, meio dia. Caminhando nas montanhas de Cochabamba.
Foi um dia absurdo. Quando saí do Brasil estava com tersol na vista, que foi piorando cada vez mais até que o inchaço era tanto que a pálpebra estava pesada e o olho ficava meio entreaberto. A altitude fez seu papel e a mudança de pressão fez com que o tersol abrisse, expelindo toda secreção da inflamação, e em meia hora de caminhada meu olho fechava normalmente e estava consideravelmente melhor.

Não tinha água, só alguns pacotes de biscoito na mochila, que nem inspiravam o gasto de mais alguns newtons para tirar a mochila das costas. A caminhada foi colossal. Quando soube depois quanto andei não acreditava, andei mais 23km nessa altitude! Foi incrível, eram centenas de pessoas subindo as montanhas, centenas de pessoas descendo as montanhas. Milhares de carretas paradas porque não havia como passar e pedras, pedras para todo lado.

O sol era mito forte e eu tive queimadura de altitude no rosto. Não adiantava tirar o casaco pois pegava o frio próximo de zero que fazia durante o dia. Meu maior receio era ter que passar a noite ali e pegar temperaturas próximas a 15 ou 20 graus negativos sem estar preparado para tanto. Finalmente consegui chegar ao final do bloqueio onde passavam táxis a cada meia hora.
Na curva que parei havia uma placa na estrada determinando a altitude: 4.496 msnm. Minha primeira atividade montanhista por assim dizer, e cheguei nessa altitude. Nem acreditava...
Descansei um pouco, e após tanto problema, ironicamente peguei um táxi que por apenas 100 bolivianos que foram divididos entre eu e mais dois bolivianos e que fez uma corrida de 150km até Oruro.

Lá chegando, na noite do terceiro dia de viagem, pela primeira vez peguei um hotel que custou 80 bolivianos, e tomei meu primeiro banho na viagem. Estava exausto, e conseguira meu primeiro descanso após caminhar no total 45km, sofrer com o tersol e as queimaduras no rosto. O extremo de minha aventura. Dormi feito pedra por onze horas.

Essa foi minha primeira atividade em alta montanha. Sem programar, sem idealizar.
Ainda bem que tudo deu certo, ninguém saiu ferido, todos se entenderam, e eu consegui sair de Cochabamba.

De lá pra cá, fiquei fascinado pelas montanhas e comecei a investir na compra de equipamentos, bem como programar subidas...
Minha trajetória de sedentarismo foi devidamente encerrada!

Um comentário:

Daiana Costa disse...

Caramba! Que aventura, hein!
Difícil, mas realmente inesquecível. Nessas que a gente prova nossa capacidade de superar limites.

Primeiro post do blog. Hú-hú! hehehe. \o/